Demanda por fertilizantes no Brasil pode cair até 16porcento em 2026, aponta mercado
Custos elevados, restrição de crédito e redução das compras pelos produtores pressionam o setor; cenário preocupa o planejamento da safra 2026/27
O consumo de fertilizantes no Brasil pode registrar uma queda de até 16% em 2026, diante do aumento dos custos de produção e das dificuldades de acesso ao crédito rural. Após atingir o recorde de 49,1 milhões de toneladas em 2025, a demanda nacional pode recuar para menos de 42 milhões de toneladas neste ano, retornando a patamares próximos aos registrados em 2022.
As novas estimativas foram divulgadas pela Globo Rural nesta sexta-feira (23) e refletem uma revisão das expectativas do mercado, que inicialmente projetava uma retração menor. O cenário é influenciado pelo encarecimento das matérias-primas, pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio e pela decisão de produtores de adiar compras ou reduzir a aplicação de adubos nas lavouras.
Em agosto, a consultoria Argus estimava que a demanda brasileira ficaria próxima de 45 milhões de toneladas. No entanto, a ausência de uma recuperação das compras de última hora para o plantio da soja 2026/27 e a desaceleração das importações de fertilizantes nitrogenados levaram o mercado a rever as projeções.
A coordenadora de inteligência e projetos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ana Lígia Lenat, considera possível que o consumo fique abaixo de 42 milhões de toneladas, diante da combinação entre retração da demanda e dificuldades enfrentadas pela indústria nacional.
Entregas de fertilizantes já apresentam queda
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) confirmam a desaceleração do mercado. Entre janeiro e julho de 2026, as entregas de fertilizantes no Brasil somaram 22,98 milhões de toneladas, redução de 8,8% em relação às 25,21 milhões de toneladas registradas no mesmo período de 2025.
Somente em julho, o volume entregue foi de 3,96 milhões de toneladas, queda de 22,3% na comparação com o mesmo mês do ano passado.

A produção nacional de fertilizantes intermediários também diminuiu. De janeiro a julho, foram produzidas 3,34 milhões de toneladas, recuo de 19,7%. No mesmo período, as importações totalizaram 21,23 milhões de toneladas, redução de 7,6%.
A diminuição das compras ocorre em um momento de preparação da safra de verão, quando os produtores precisam definir investimentos em insumos e estratégias de manejo para o novo ciclo agrícola.
Alta do enxofre afeta produção nacional
Um dos principais fatores de pressão sobre o setor é o preço do enxofre, matéria-prima utilizada na fabricação de fertilizantes fosfatados.
O encarecimento do insumo provocou dificuldades para a indústria brasileira e contribuiu para paralisações temporárias ou reduções de produção em algumas unidades.
A multinacional Mosaic anunciou interrupções totais ou parciais em cinco plantas industriais no Brasil, além da redução das atividades em duas unidades de mistura.
A empresa estima que as entregas nacionais de fertilizantes poderão recuar entre 10% e 15% em 2026, ficando entre 42 milhões e 44 milhões de toneladas.
Segundo o vice-presidente comercial da Mosaic, Felipe Pecci, a combinação de estoques menores, importações reduzidas e limitações na produção nacional pode aumentar as dificuldades de abastecimento em 2027.
Apesar de o preço do enxofre ter recuado 23% nas últimas sete semanas, conforme levantamento da consultoria StoneX, o valor ainda permanece elevado em comparação com os patamares históricos.
A situação também é acompanhada pelo Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), que avalia a possibilidade de manutenção das pressões sobre o setor no curto e médio prazo.
Produtores reduzem adubação para conter custos
Diante do aumento das despesas e das condições mais restritivas de financiamento, parte dos agricultores brasileiros tem buscado alternativas para reduzir os gastos com fertilizantes.
Uma das estratégias utilizadas é diminuir temporariamente a aplicação de determinados nutrientes, especialmente em áreas que apresentam reservas acumuladas no solo em decorrência de adubações anteriores.
Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Mauricio Buffon, alguns produtores estão recorrendo às reservas de fósforo já existentes nas áreas agrícolas para reduzir os investimentos nesta safra.
A estratégia, entretanto, exige avaliação técnica. A redução da adubação sem considerar a fertilidade do solo e as necessidades das culturas pode comprometer a produtividade e o equilíbrio nutricional das lavouras nos ciclos seguintes.
O cenário também preocupa diante das projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima uma produção brasileira de 181,6 milhões de toneladas de soja na safra 2026/27.
A área plantada com a oleaginosa deve crescer 1,4%, o menor avanço percentual dos últimos 20 anos. A expectativa de produção ainda depende das condições climáticas ao longo do desenvolvimento das lavouras.
Cenário exige atenção para a safra no Tocantins
No Tocantins, onde o plantio da soja 2026/27 começou em outubro, o cenário nacional de fertilizantes também merece atenção dos produtores.
O estado deve cultivar aproximadamente 1,6 milhão de hectares de soja nesta temporada, segundo as estimativas da Conab. O planejamento da adubação é uma das etapas que influenciam os custos de produção e o potencial produtivo das lavouras.
A redução das compras de fertilizantes em nível nacional não significa, necessariamente, que todos os produtores tocantinenses tenham diminuído a aplicação de nutrientes. Os efeitos variam conforme o período de aquisição dos insumos, a disponibilidade de crédito, o manejo adotado e as condições de fertilidade de cada propriedade.
O avanço do plantio também ocorre em meio a incertezas climáticas e financeiras, fatores que podem influenciar as decisões de investimento dos agricultores.
Para o mercado de fertilizantes, o comportamento das compras destinadas à segunda safra de 2027 será determinante para avaliar se a retração continuará nos próximos meses.
Caso as projeções mais pessimistas se confirmem, o Brasil poderá encerrar 2026 com um dos maiores recuos recentes no consumo de fertilizantes, justamente no momento em que a produção agrícola nacional busca manter o crescimento.
Com informações da Globo Rural e dados da Anda, Argus, Mosaic, CNA, StoneX e Conab.











