Crédito mais restrito ameaça investimentos no campo e acende alerta para próxima safra
Inadimplência rural, aumento das recuperações judiciais e maior exigência de garantias reduzem o apetite dos bancos e preocupam o setor produtivo
O avanço do endividamento rural já começa a pressionar o mercado de crédito brasileiro e acende um alerta para os impactos econômicos da crise no campo. Embora o problema ainda esteja mais concentrado no agronegócio, especialistas apontam que a combinação de juros elevados, eventos climáticos, aumento dos custos de produção e maior cautela dos bancos pode afetar o financiamento das próximas safras e atingir outras áreas da economia.
Dados da Serasa Experian mostram que, no terceiro trimestre de 2025, 8,3% da população rural estava inadimplente, em movimento de alta gradual em relação ao ano anterior. Segundo o head de agronegócio da empresa, Marcelo Pimenta, apesar de o cenário ainda não representar risco sistêmico para o sistema financeiro, o mercado já opera com maior cautela. “Observamos um ambiente de maior cautela na concessão de crédito, mas ainda sem sinais de comprometimento sistêmico”, afirmou.
Inadimplência no agro aumenta cautela do mercado financeiro
De acordo com Pimenta, a inadimplência está concentrada principalmente em operações com instituições financeiras. Já as dívidas diretamente ligadas à cadeia agro representam apenas 0,3%, o que indica que as relações comerciais dentro do setor seguem relativamente preservadas.
O cenário, no entanto, preocupa bancos, cooperativas e entidades do setor. Segundo ele, o mercado financeiro reduziu o apetite ao risco diante do aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio.
Em 2025, o setor registrou quase 2 mil solicitações de recuperação judicial, o maior volume da série histórica da Serasa Experian. “O mercado de crédito está com menor apetite ao risco, especialmente diante de um cenário de juros elevados, custos ainda pressionados e aumento dos pedidos de recuperação judicial no setor”, disse.
Endurecimento do crédito já afeta até produtores adimplentes
Na avaliação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o endurecimento das condições de crédito já afeta até produtores com boa saúde financeira. Segundo Guilherme Rios, assessor técnico da Comissão Nacional de Políticas Agrícolas da entidade, as instituições financeiras passaram a exigir mais garantias e a reduzir limites de financiamento, inclusive para produtores adimplentes.
“O endurecimento do mercado de crédito também tem afetado produtores com boa saúde financeira. Mesmo para esse público, as garantias exigidas aumentaram consideravelmente e os limites ofertados estão menores do que em safras anteriores”, afirmou.
Segundo a CNA, os números já refletem essa retração. O volume de financiamentos para pessoas físicas com taxas de mercado caiu de R$ 111,9 bilhões, entre março de 2024 e março de 2025, para R$ 90,5 bilhões no período entre março de 2025 e março de 2026. A redução foi de R$ 21,4 bilhões, o equivalente a uma queda de 19,1%.

Na avaliação da entidade, o atual cenário de endividamento é resultado de um conjunto de fatores, como problemas climáticos sucessivos, volatilidade no mercado de commodities, alta dos custos de produção e falhas na gestão de riscos financeiros. “Nos últimos anos, também enfrentamos recordes no valor do dólar, guerras e novas barreiras comerciais, o que agravou ainda mais a volatilidade”, explicou Rios.
Segundo ele, apesar da evolução do financiamento privado no agronegócio, os mecanismos de proteção ao produtor não acompanharam o crescimento do setor. “O modelo de financiamento brasileiro vem se desenvolvendo e se aprimorando a cada ano. No entanto, a gestão de riscos não acompanhou esse avanço”, afirmou.
O temor do setor é que, sem mecanismos mais rápidos de renegociação das dívidas, a restrição de crédito comprometa a safra 2026/2027, reduza investimentos no campo e provoque impactos em cadeia na economia brasileira.
“Muitos produtores já sinalizam redução do pacote tecnológico e diminuição da área plantada. Isso se traduz em menor produtividade e menor geração de valor no campo, com reflexos em toda a economia”, alertou o assessor técnico da CNA.
A Serasa Experian também avalia que um ambiente prolongado de inadimplência pode reduzir a capacidade de investimento dos produtores e elevar a percepção de risco em toda a cadeia agropecuária.
“Sem mecanismos mais ágeis de renegociação, o setor pode enfrentar um ambiente de crédito ainda mais cauteloso, com aumento do custo financeiro e redução da capacidade de investimento do produtor para a próxima safra”, concluiu Pimenta.








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