Estudo aponta que R$ 92,4 bilhões do crédito rural foram destinados a imóveis com alertas ambientais

Levantamento do MapBiomas analisou operações realizadas entre 2019 e 2025; Tocantins lidera em volume de recursos entre os estados

Estudo aponta que R$ 92,4 bilhões do crédito rural foram destinados a imóveis com alertas ambientais
ilustrativa

                                                                                                                          (Foto: Portal Atitude).

Um levantamento do MapBiomas revelou que cerca de 15% do crédito rural público concedido no Brasil entre 2019 e 2025 foi destinado a imóveis rurais que apresentam alertas de desmatamento ou degradação da vegetação nativa. Ao todo, foram identificadas 831 mil operações, que somam R$ 92,4 bilhões.

Os dados fazem parte da nova edição do Monitor do Crédito Rural, plataforma que cruza informações do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) com bases geoespaciais sobre alertas ambientais, embargos, terras indígenas, unidades de conservação, territórios quilombolas e florestas públicas.

O estudo destaca, no entanto, que a existência de um alerta ambiental não significa, necessariamente, que houve desmatamento ilegal ou irregularidade na concessão do financiamento. Segundo o MapBiomas, os alertas identificam a perda de vegetação nativa, mas não avaliam a legalidade da supressão, que pode ocorrer mediante autorização dos órgãos competentes.

Tocantins lidera em volume de recursos

Embora o Piauí tenha registrado o maior número de operações de crédito rural com algum tipo de sobreposição a áreas socioambientais, o Tocantins aparece na liderança em volume financeiro, com R$ 13,9 bilhões em operações entre 2019 e 2025.

Na sequência aparecem Mato Grosso, com R$ 13,3 bilhões, e Rondônia, com R$ 13 bilhões.

Cinco instituições concentram maior parte do crédito

Segundo o levantamento, mais de 400 instituições financeiras operam crédito rural no Brasil, mas cinco concentram aproximadamente 60% do volume total financiado:

  • Banco do Brasil;
  • Banco do Nordeste;
  • Banco da Amazônia;
  • Sicredi;
  • Banrisul.

No período analisado, o crédito rural público totalizou R$ 613,18 bilhões.

Banco do Nordeste foi responsável pelo maior número de operações, respondendo por 56% dos contratos realizados entre 2019 e 2025. Já o Banco do Brasil liderou em volume de recursos financiados, com aproximadamente R$ 306 bilhões.

Investimentos e pecuária concentram operações

O estudo mostra que 68% das operações tiveram como finalidade investimentos. A pecuária respondeu por cerca de 58% dos financiamentos, enquanto 23% foram destinados à aquisição de animais.

Os bovinos aparecem como o principal produto financiado, presentes em aproximadamente 27% das operações analisadas.

Novas regras entram em vigor em 2027

Atualmente, a legislação proíbe a concessão de crédito rural apenas para imóveis formalmente embargados por órgãos ambientais, como o Ibama.

Entretanto, em dezembro de 2024, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou uma resolução que obrigará as instituições financeiras a utilizar alertas de satélite, como os do sistema Prodes, para bloquear a concessão de crédito antes mesmo da aplicação de um embargo oficial. A medida passará a valer em janeiro de 2027.

Bancos reforçam cumprimento da legislação

Em nota, o Banco do Brasil afirmou que sua política de crédito impede financiamentos em áreas protegidas e com desmatamento ilegal. Segundo a instituição, atualmente são consultadas 33 bases públicas para verificar restrições socioambientais antes da contratação das operações.

O banco informou ainda que, somente em 2025, deixou de direcionar R$ 31,6 bilhões para áreas incompatíveis com sua política socioambiental.

Já o Banco do Nordeste declarou que todas as operações seguem rigorosamente a legislação vigente e passam por análises socioambientais durante toda a vigência do financiamento. A instituição ressaltou ainda que operações localizadas em áreas protegidas nem sempre representam irregularidades, já que podem envolver beneficiários legalmente autorizados, como povos indígenas, comunidades quilombolas, extrativistas e outras populações tradicionais.

Por Agora Tocantins.