Gir Leiteiro: como uma raça indiana conquistou espaço na pecuária leiteira brasileira?

Resultado de décadas de seleção no Brasil, o Gir Leiteiro se tornou uma das principais referências entre os zebuínos especializados em produção de leite.

Gir Leiteiro: como uma raça indiana conquistou espaço na pecuária leiteira brasileira?
ilustrativa

Quando se fala na raça Gir, a primeira característica que talvez venha à cabeça seja a rusticidade. Mas existe uma história menos conhecida por trás desses animais: no Brasil, o Gir passou por décadas de seleção direcionada para a produção de leite e se transformou em uma das principais raças zebuínas leiteiras do país.

A história começa muito antes de o Gir se tornar “Gir Leiteiro”. A raça tem origem na Índia e chegou ao Brasil em diferentes momentos. Segundo publicação da Embrapa, exemplares de Gir foram importados em 1906, 1919, 1930, 1960 e 1962. Foi a partir desses animais que criadores e instituições brasileiras começaram a selecionar indivíduos que reuniam características produtivas interessantes sem perder a capacidade de adaptação típica dos zebuínos.

Uma seleção que começou nos anos 1930

A Embrapa registra que o processo de seleção do Gir Leiteiro brasileiro começou na década de 1930, envolvendo órgãos governamentais e criadores particulares. Isso é importante porque mostra que o Gir Leiteiro brasileiro não surgiu simplesmente de uma população indiana “naturalmente leiteira” que chegou ao país pronta. Houve um processo de seleção genética conduzido durante décadas.

O objetivo era encontrar, dentro da população Gir, animais capazes de produzir mais leite e, ao mesmo tempo, manter características importantes para ambientes tropicais. Essa combinação ajudou a tornar o Gir uma das principais bases genéticas dos sistemas de cruzamento leiteiro brasileiros.

O maior produtor de leite entre os zebuínos

A própria Embrapa destaca o Gir Leiteiro como a raça de maior produção de leite entre as raças zebuínas. E existe uma razão para isso ter importância muito além da criação de animais puros.

O Gir Leiteiro se tornou a principal raça zebuína utilizada nos cruzamentos com a Holandesa para formação do Girolando. A ideia é relativamente simples: combinar a capacidade produtiva de uma raça europeia especializada com a rusticidade e adaptação de uma raça zebuína. O resultado é uma das histórias mais importantes da pecuária leiteira brasileira.

O controle leiteiro ajudou a mudar a raça

Um dos pontos mais interessantes da trajetória do Gir Leiteiro é a utilização sistemática de controle leiteiro e avaliação genética. De acordo com a Embrapa, as vacas dos rebanhos Gir Leiteiro são submetidas mensalmente ao Controle Leiteiro Oficial. Em uma publicação sobre o programa de melhoramento, a instituição registrava mais de 37 mil lactações de mais de 17 mil vacas no banco de dados do Arquivo Zootécnico Nacional.

Para que uma vaca fosse enquadrada nos critérios apresentados naquele documento, havia exigência mínima de 2.100 kg de leite em 305 dias de lactação ou 2.500 kg em 365 dias. Hoje, o processo de seleção está ainda mais sofisticado. O Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro passou a incorporar avaliações genômicas e índices que consideram não apenas volume de leite, mas também gordura, proteína, idade ao primeiro parto e parentesco médio.

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Na avaliação divulgada pela Embrapa em 2025, o programa já contava com 679 touros provados e chegava ao 34º grupo do Teste de Progênie. Isso ajuda a mostrar uma mudança importante na pecuária: a seleção não busca simplesmente a “vaca que dá mais leite”, mas animais mais completos para o sistema de produção.

Por que o Gir é tão importante para o Brasil?

A resposta está justamente na adaptação. A Embrapa destaca características como rusticidade e capacidade de produção em condições tropicais. A raça também apresenta importância em sistemas de cruzamento porque pode transmitir características adaptativas às gerações mestiças. Em um país de dimensões continentais e grande diversidade climática, essa característica tem enorme valor.

Referências para a nota:

Embrapa Gado de Leite, O Gir Leiteiro Brasileiro; Embrapa, Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro – Sumário Brasileiro de Touros; Embrapa, Genética animal – Bovino de Leite.