RS pode perder 94porcento dos produtores até 2051: sucessão, custos e quem fica no leite
Estudo aponta que, se o abandono da atividade continuar seguindo o mesmo ritmo dos últimos dez anos, o RS terá menos de 1,7 mil famílias produzindo leite em 2051.
Entre 2015 e 2025, mais de 55 mil produtores de leite abandonaram a atividade no Rio Grande do Sul. E esse processo parece estar longe do fim. Um estudo realizado pelo pesquisador Wagner Beskow, sócio da consultoria Transpondo e colunista do MilkPoint, tendo como base os levantamentos da Emater/RS, mostra que, se o abandono da atividade continuar seguindo o mesmo ritmo dos últimos dez anos, o Rio Grande do Sul terá menos de 1,7 mil famílias produzindo leite em 2051 - uma perda de 94% dos atuais 29 mil produtores.
“Essa estimativa leva em conta a manutenção de condições conjunturais parecidas com as atuais, como câmbio, volume de exportação, importação. Não temos pretensão de acertar esse número, mas a tendência é essa”, alerta o pesquisador.
A redução da bovinocultura leiteira no Rio Grande do Sul segue um padrão nacional. De 2006 para 2017, o número de propriedades no Brasil passou de 874,5 mil para 634,5 mil, conforme os dados do Censo Agropecuário, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Estimativas do Centro de Inteligência do Leite (CILeite) da Embrapa indicam aproximadamente 513 mil propriedades em todo o país em 2025, queda de 41,3% em quase 20 anos.
Para identificar as razões desse abandono de atividade, a Emater/RS realizou um estudo em 385 municípios gaúchos, com 571 famílias que fizeram essa migração. O levantamento foi apresentado na 49ª Expointer. A pesquisa indica que a decisão de interromper a produção comercial de leite normalmente não acontece por uma causa única. Entre os fatores internos, os maiores percentuais aparecem na penosidade da atividade (66,4%), falta de mão de obra familiar (61,3%) e desinteresse dos filhos (37,8%). “A dificuldade para contratar trabalhadores, tanto pelo custo quanto pela disponibilidade, também influencia", destaca o extensionista rural Jaime Ries.
Já entre os fatores externos, aparecem com frequência o baixo preço do leite (79,3%), custo de aquisição de insumos (66,7%), e contratação de mão de obra (30,3%). Situações conjunturais podem se somar a essas dificuldades. Uma estiagem, a aposentadoria de um integrante da família ou a saída de um filho da propriedade, por exemplo, podem se transformar no elemento decisivo. “É um conjunto de condições que vai se somando. Geralmente, a decisão já vinha sendo pensada e, em determinado momento, acontece um gatilho. É um processo multifatorial”, esclarece Ries.
O estudo também buscou compreender o que aconteceu com as famílias depois da saída da atividade. Embora pouco mais de um terço tenha relatado algum nível de redução da renda, boa parte dos entrevistados afirma estar satisfeita com as atividades que desenvolve atualmente quando compara a situação com o período em que produzia leite.
Para Jaime, a percepção está relacionada também à rotina e às exigências da produção leiteira. Ao mesmo tempo, muitas famílias reconhecem o papel fundamental que a atividade teve em suas trajetórias. "Há entrevistados que atribuem à produção de leite a possibilidade de financiar os estudos dos filhos, construir patrimônio e melhorar as condições de vida da família”, afirma. “Apesar desse reconhecimento, quando perguntadas sobre a possibilidade de algum integrante voltar à atividade leiteira, a expressiva maioria afirmou não ter essa intenção", explica o extensionista.
O índice daqueles que não planejam retomar à venda de leite chega a 79,8%, enquanto 16,2% afirmam que não sabem ou talvez retomem essa atividade, e apenas 4% responderam que pensam em voltar a comercializar o leite.
Menos produtores, mais produção
Por outro lado, se o número de famílias na atividade leiteira está caindo, a produção de leite está aumentando. No Brasil, informações da Pesquisa Pecuária Municipal (PPM) do IBGE, compiladas pelo CILeite, mostram que a produtividade média passou de 1.105 litros por vaca/ano em 2000 para 2.362 litros/vaca/ano em 2024. A produção de leite subiu de 19,7 bilhões para 35,7 bilhões de litros nesses 24 anos.
No Rio Grande do Sul, o volume de leite produzido nas propriedades, que ficava abaixo de 100 litros por dia antes de 2015, hoje alcança quase 500 litros diários, informa Marcos Tang, presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul (Gadolando). Para o dirigente, o setor passa por um processo de transformação, marcada pela redução drástica do número de produtores e pelo salto expressivo na escala e produtividade.
O escalonamento da produção e o avanço da eficácia das propriedades mitigaram a queda no volume global de leite. A migração dos animais de maior potencial para produtores com mais capacidade de investimento e o aprimoramento genético também garantiu rebanhos mais eficientes e com maior média de lactação. “Quem era apenas ‘tirador de leite’ já saiu da atividade há muito tempo. O nosso produtor, hoje, é altamente competente. E não importa o tamanho do rebanho, seja pequeno ou grande criador, é necessário eficiência”, destaca Tang.
A maior profissionalização do setor também é destacada pelas indústrias, que incentivam o aumento da escala e da produção por animal. “Uma vaca com uma genética não tão avançada produz de 15 a 20 litros de leite por dia, mas o custo de alimentação dela é o mesmo daquela que faz de 40 ou 50 litros diários”, comenta Darlan Palharini, secretário executivo do Sindicato das Indústrias de Laticinios do Rio Grande do Sul (Sindilat-RS) .



Jeferson Faria, assessor executivo da Associação das Pequenas e Médias Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Apil/RS), concorda que o setor leiteiro gaúcho passa por uma clara profissionalização. No entanto, a perda contínua de famílias na atividade é preocupante. "Existe uma dicotomia: uma parte mais evolutiva, econômica, onde sem dúvida está existindo uma profissionalização. Por outro lado, a gente vê com muita preocupação o lado social com a saída de muitos produtores", avalia.
Foto: Fredy Vieira
Inovação e sucessão familiar
No atual cenário da pecuária leiteira gaúcha, fortemente impactado pela descontinuidade de atividades em pequenas propriedades, a busca por eficiência e a visão de futuro tornaram-se vitais. Na Cabanha Santa Clara, de Humaitá (RS), a receita para manter a estabilidade no campo une a realização de investimentos contínuos à garantia da sucessão familiar, assegurando a permanência da nova geração no meio rural.
Com 32 hectares produtivos dedicados ao leite e ao cultivo de grãos, a propriedade abriga um rebanho de 170 cabeças. O volume diário alcança 2,5 mil litros, com os animais mais produtivos atingindo marcas de até 50 litros por vaca/dia. Para a produtora Clara Bickel Padilha, essa produtividade resulta do investimento constante no negócio.
Essa preocupação com a viabilidade do negócio foi determinante para despertar a paixão da próxima geração. Segundo Clara, a sua filha, Bruna Bickel Padilha, de 21 anos, planeja assumir os rumos da propriedade, e já participa da ordenha. "Acho que o essencial é o aprendizado desde pequeno, fazer a criança ter apego pelos animais, entender como funciona e entender o porquê do valor genético. Tudo isso influencia", conclui.
Outro exemplo de sucesso é a Granja Ferraboli, de Anta Gorda (RS), que vem acumulando recordes e premiações. Na Expointer 2026, a propriedade conquistou o concurso leiteiro com a vaca Festleite P. Ferraboli 407 Supersite, que produziu 85,27 quilos em um dia.
A continuidade da produção na Granja Ferraboli também passa pela sucessão familiar. O produtor afirmou que os filhos decidiram permanecer na atividade, tanto na produção de leite quanto na lavoura. “Tivemos os filhos e, teimosos, quiseram ficar lá”, brinca. A permanência da nova geração é vista por ele como um sinal importante diante do movimento de saída de produtores da atividade.
As informações são do Globo Rural, adaptadas pela equipe MilkPoint.












