Novas regras da ANTT ampliam uso de dados no transporte

Novas regras da ANTT ampliam uso de dados no transporte

Novas regras da ANTT ampliam uso de dados no transporte
ilustrativa

A obrigatoriedade do Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT) no transporte rodoviário remunerado de cargas, em vigor desde maio de 2026, ampliou o registro de informações sobre as operações do setor no Brasil. Com mais dados disponíveis, ferramentas de inteligência artificial (IA) começam a ganhar espaço na gestão de frotas, permitindo que empresas consultem custos, acompanhem veículos e analisem indicadores operacionais sem depender exclusivamente da elaboração manual de relatórios.

O CIOT reúne informações sobre contratantes, transportadores e veículos envolvidos nas operações. A exigência da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) reforça a necessidade de organização desses registros, especialmente em empresas que administram grandes volumes de informações relacionadas a abastecimento, manutenção, despesas e utilização dos veículos.

Nesse cenário, uma das aplicações da inteligência artificial é simplificar o acesso aos dados já armazenados nos sistemas de gestão. Em vez de consultar diferentes relatórios e cruzar informações manualmente, os responsáveis pelas frotas podem fazer perguntas em linguagem natural para identificar gastos elevados, comparar o desempenho dos veículos e verificar possíveis problemas operacionais.

Segundo Paulo Raymundi, CEO da Gestran, empresa brasileira de tecnologia para gestão de frotas, o desafio está em transformar os registros acumulados pelas transportadoras em informações que possam orientar decisões.

“Uma empresa registra diariamente abastecimentos, despesas, manutenções, pneus, checklists, documentos, compras e informações sobre os veículos. O ponto é conseguir transformar esse volume de dados em respostas úteis, sem que cada dúvida exija uma nova análise manual”, afirma.

Entre as aplicações estão a identificação dos veículos com maiores despesas, a análise do consumo de combustível e o acompanhamento dos custos por quilômetro rodado. Também é possível verificar a quantidade de ordens de serviço, os gastos com peças e o tempo de permanência dos veículos fora de operação.

A Gestran desenvolveu a Gi, agente de inteligência artificial integrado à plataforma Gestran Frota, que permite realizar essas consultas diretamente no sistema. A ferramenta interpreta perguntas feitas pelo gestor e apresenta respostas com base nas informações disponíveis, com possibilidade de organizar os resultados em gráficos ou exportá-los para arquivos Excel e CSV.

O recurso, no entanto, não executa mudanças na operação. Conforme a empresa, a Gi não altera registros, não cria ordens de serviço e não realiza procedimentos administrativos. Sua atuação é limitada à consulta e à interpretação dos dados armazenados.

Apesar do avanço dessas tecnologias, a integração da inteligência artificial aos processos empresariais ainda enfrenta dificuldades. Pesquisa da Live University/Inbrasc aponta que 88% das empresas brasileiras já utilizam IA generativa, mas somente 14% alcançaram um estágio avançado no uso de agentes de inteligência artificial para análises e previsões.

No setor de frotas, os desafios também envolvem a própria estrutura de gestão. Durante o evento Frotas Conectadas, realizado em agosto de 2026, Raphael Aguiar, sócio e diretor da Gestran, afirmou que apenas 15% das empresas do setor atingem seus objetivos de gestão de frota. Entre as demandas mais frequentes estão o controle operacional, a redução de custos e a segurança.

A dificuldade de integrar informações também aparece no cenário internacional. Levantamento da PwC com líderes das áreas de operações e cadeia de suprimentos mostrou que 83% dos entrevistados acreditam no potencial dos agentes de IA e da automação para conectar diferentes áreas das empresas.

Entretanto, apenas 27% afirmaram possuir uma estratégia de inteligência artificial totalmente integrada às unidades de negócio. A qualidade dos dados foi apontada como uma limitação para os resultados das iniciativas digitais por 87% dos participantes, enquanto somente 37% disseram se sentir confortáveis em delegar processos completos a agentes de IA.

Na administração das frotas, a disponibilidade de informações também pode influenciar a organização do trabalho dos motoristas. A identificação antecipada de um veículo parado, por exemplo, permite avaliar a necessidade de mudanças na programação, redistribuição de viagens ou antecipação de serviços de manutenção.

De acordo com Raymundi, a possibilidade de consultar os indicadores durante a operação pode ajudar a evitar que problemas sejam identificados apenas no fechamento dos relatórios periódicos.

“A tecnologia sempre foi muito boa em registrar o que aconteceu. O que muda agora é a possibilidade de colocar esse histórico para trabalhar durante a tomada de decisão. O gestor não precisa esperar o fechamento do mês para descobrir que alguma coisa saiu do padrão. Ele pode investigar a situação enquanto ela está acontecendo e decidir se precisa agir”, explica.

O executivo destaca que a análise das informações pode contribuir para reduzir os impactos de veículos indisponíveis sobre a programação das transportadoras. A consulta sobre o tempo de ociosidade e as condições da frota permite avaliar a capacidade operacional e identificar situações que exigem atenção.

Com a ampliação dos registros exigidos pela ANTT e o avanço das ferramentas digitais, o gerenciamento das informações passa a ocupar uma posição importante na rotina das empresas de transporte de cargas. A utilização da inteligência artificial pode facilitar esse processo, mas a avaliação dos resultados e as decisões sobre manutenção, custos e utilização dos veículos continuam sob responsabilidade dos gestores.