Orizona/GO: cidade de 17 mil habitantes produz 400 mil litros de leite por dia
Orizona, em Goiás, se consolidou como uma das principais referências da atividade no estado.
Orizona, município com população estimada em 17.035 habitantes, localizado a cerca de 127 quilômetros de Goiânia por rodovia, produz aproximadamente 400 mil litros de leite por dia e se consolidou como a principal bacia leiteira de Goiás. O avanço da atividade pode ser medido pelo Torneio Leiteiro realizado no município. Em 1975, a vaca campeã produziu 9 litros. Na edição deste ano, a vencedora alcançou média de 115 litros.Continua depois da publicidade
As propriedades rurais já adotam ordenha robotizada, confinamento moderno, inseminação artificial e transferência de embriões. A modernização, porém, esbarra na falta de mão de obra qualificada. Presidente do Sindicato Rural de Orizona e da Cooperativa Copi Goiás, Geovando Pereira destacou a força econômica da cadeia leiteira, a Festa do Leite e os desafios para manter o município na liderança estadual.
Para começar, quem é Geovando Pereira e qual é a atuação do Sindicato Rural de Orizona?
Geovando Pereira: "sou natural de Orizona. Atualmente, sou presidente do Sindicato Rural de Orizona e da Copi Goiás, uma cooperativa de captação de leite. O sindicato é filiado à Federação da Agricultura do Estado de Goiás, a FAEG, e nossa missão é levar informação e conhecimento aos produtores, defender a classe rural e, principalmente, promover capacitação".
E como essa capacitação chega aos produtores?
Geovando Pereira: "principalmente por meio do Senar. Levamos conhecimento técnico e assistência aos produtores de leite. Hoje, por exemplo, temos o Senar Mais Leite. Um técnico acompanha cerca de 30 produtores, capacitando-os em todo o sistema produtivo da fazenda. Temos oito grupos desse tipo no município".
Quanto leite Orizona produz atualmente? É uma produção que abastece apenas o próprio município?
Geovando Pereira: "em torno de 400 mil litros de leite por dia. Não. Temos três cooperativas atuando no município, além de cooperativas de Silvânia e Bela Vista de Goiás que buscam leite em Orizona para beneficiá-lo em outros municípios. Também temos indústrias. Há o Laticínio Valeza, dentro do próprio município, e grandes empresas que fazem captação na região".
Como Orizona chegou ao posto de principal bacia leiteira de Goiás?
Geovando Pereira: "é uma história que vem de muitos anos. Desde 1975, realizamos o Torneio Leiteiro. Naquela época, com o crescimento da produção, um técnico da Emater começou a incentivar os produtores a trabalhar com tecnologia. Depois vieram os financiamentos, as associações rurais que se transformaram em cooperativas e cada vez mais assistência técnica. O produtor foi se tecnificando até Orizona se tornar a principal bacia leiteira do Estado".
O próprio Torneio Leiteiro mostra essa evolução. Quanto produzia a campeã em 1975 e quanto produz hoje?
Geovando Pereira: "no primeiro torneio, em 1975, a vaca mais produtiva produziu 9 litros. Depois tivemos um período em torno de 30 litros, passamos para 50, depois 70 e hoje ultrapassamos 100 litros. No ano passado, a vaca mais produtiva ficou em torno de 114 litros de média e, neste ano, chegou a 115".
Sair de 9 litros para mais de 100 representa uma transformação expressiva. O que tornou isso possível?
Geovando Pereira: "são vários fatores. Primeiro, assistência técnica bem-feita. É capacitar o produtor para fazer silagem e trabalhar corretamente a parte nutricional. Outro pilar é a genética. Hoje temos animais especializados em produção de leite e um ganho genético muito grande, com inseminação artificial, transferência de embriões e várias outras tecnologias".
A genética se tornou, então, um dos grandes diferenciais?
Geovando Pereira: "com certeza. As próprias empresas que vendem sêmen no país têm representantes no município porque existe demanda. O sindicato também capacita os trabalhadores das fazendas para fazer inseminação e trabalhar com essas tecnologias".
A tecnologia chegou ao ponto de substituir a ordenha tradicional por robôs?
Geovando Pereira: "sim. Já temos fazendas robotizadas no município. A ordenha, de maneira geral, é mecanizada e temos propriedades trabalhando com robôs. Isso reduz a necessidade de mão de obra em algumas etapas, mas cria outra necessidade: profissionais especializados para operar esses equipamentos".

Então Orizona tem baixo desemprego?
Geovando Pereira: "o problema hoje é outro: falta mão de obra qualificada. Mesmo as pessoas que chegam de fora precisam ser capacitadas para trabalhar nas propriedades, porque a atividade leiteira utiliza muita tecnologia".
Como vivem as vacas que chegam a produzir mais de 100 litros?
Geovando Pereira: "a maioria desses animais fica estabulada em galpões, em sistemas como free stall ou compost barn. A vaca permanece no galpão e sai para a ordenha. Tem ventilação, alimentação balanceada, controle nutricional e sistemas para refrescar o animal. Uma vaca que produz muito leite também gera muito calor, então precisa de conforto".
Ainda existe uso frequente de hormônios para alcançar essa produtividade?
Geovando Pereira: "hoje usamos muito pouco. Praticamente não se usa mais como antigamente. Estamos caminhando para um manejo mais limpo. Isso também melhora a saúde e a vida produtiva do animal".
Como uma vaca é escolhida para disputar o Torneio Leiteiro?
Geovando Pereira: "o veterinário da propriedade seleciona os animais com maior potencial produtivo. A preparação começa cerca de 30 dias antes. Quando chega ao evento, o animal passa por adaptação e recebe todo o manejo necessário, com banho, ventilação e alimentação adequada".
E como é feita a medição?
Geovando Pereira: "são três ordenhas por dia. A vaca chega antes para se adaptar ao ambiente e, depois, começam as ordenhas válidas. A produção é pesada e acompanhada pela equipe durante a competição".
Quanto recebe o produtor da vaca campeã?
Geovando Pereira: "em torno de R$ 12 mil. Depois temos premiações próximas de R$ 10 mil e R$ 8 mil. É mais um incentivo, porque não cobre todas as despesas de preparação".
E qual é a destinação do leite produzido durante a competição?
Geovando Pereira: "o leite é doado para o abrigo de idosos de Orizona. É uma instituição construída com a participação da própria comunidade e que abriga cerca de 30 a 40 idosos. O sindicato também contribui mensalmente com o abrigo".
É possível dizer que Orizona vive do leite?
Geovando Pereira: "o leite é predominante. Temos outras atividades, como a produção de cachaça e mel, mas o leite movimenta muito a economia. No dia 25, que tradicionalmente é o dia do pagamento do leite, a cidade muda. Produtores e empregados recebem e vão fazer compras. O comércio fica movimentado".
Isso ajuda a explicar por que vocês optaram por uma Festa do Leite, em vez de uma exposição agropecuária tradicional?
Geovando Pereira: "exatamente. A maioria dos sindicatos faz exposição agropecuária com shows. Nós fizemos outra opção. Como Orizona é leite, criamos a Festa do Leite. Na realidade, é praticamente uma feira de negócios".
Por que abrir mão dos grandes shows?
Geovando Pereira: "porque nosso público é outro. Quando procuramos empresas para participar, muitas perguntam primeiro se haverá show. Se tiver, algumas não querem participar, porque o público delas não é o público de show. Elas querem conversar com o produtor. Então temos empresas de nutrição, máquinas para produção de leite, energia solar, veterinários e vários outros segmentos".
É uma feira voltada diretamente para quem produz?
Geovando Pereira: "sim. É uma feira de negócios e de conhecimento. Procuramos levar palestrantes de alto nível para discutir liderança, gestão, reprodução, sucessão e tecnologia".
Quem participou desta edição?
Geovando Pereira: "tivemos Sérgio Soriano, diretor-geral da Fazenda Colorado, em São Paulo; Diana Junqueira, da Fazenda Agrindus; e José Eduardo Portela, professor da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos. Antes da palestra, inclusive, ele visitou quatro propriedades tecnificadas de Orizona para conhecer nosso trabalho".
A presença feminina também ganhou destaque?
Geovando Pereira: "sim. Temos várias mulheres que dirigem propriedades em Orizona. Em alguns casos, são elas que estão à frente da gestão da fazenda. Então procuramos valorizar esse protagonismo feminino também na programação".
Quantas pessoas passaram pela Festa do Leite?
Geovando Pereira: "foram contabilizadas cerca de 14.810 pessoas pela entrada principal. Como havia outros acessos, estimamos aproximadamente 15 mil visitantes nos quatro dias".
O público da festa equivale a quase toda a população do município. Qual é a importância desse alcance?
Geovando Pereira: "sim. E não é apenas quantidade. As palestras tiveram média de aproximadamente 200 pessoas. Tivemos encontro de produtores assistidos pelo Senar, demonstrações de artesanato, simulador de máquinas agrícolas e até uma ferramenta do Sebrae que utiliza inteligência artificial para fazer o diagnóstico das propriedades".
Apesar da força econômica do leite, quais são hoje os principais gargalos de Orizona?
Geovando Pereira: "a infraestrutura das estradas deixa a desejar. O município é muito grande e temos muitas estradas de chão. No período chuvoso, isso atrapalha, aumenta o custo de produção e dificulta até a chegada das indústrias às propriedades".
Saúde, educação e segurança acompanham o desenvolvimento econômico do município?
Geovando Pereira: "saúde e educação são áreas que funcionam bem. Na segurança, Orizona também é uma cidade tranquila. O sindicato participou da implantação da Patrulha Rural, inspirada em uma experiência de Catalão. Esse modelo cresceu e hoje existe um batalhão rural no Estado".
Depois de sair de uma vaca produzindo 9 litros para animais que superam 100 litros, qual é o próximo passo para Orizona?
Geovando Pereira: "continuar investindo em tecnologia, conhecimento e qualificação. Queremos mostrar o trabalho que é feito nas propriedades e aproximar produtores, empresas e especialistas. A Festa do Leite é justamente uma vitrine desse potencial. Orizona chegou a esse nível porque o produtor investiu em genética, assistência técnica, capacitação e gestão".
As informações do portal Gyn Notícias, resumidas e adaptadas pela Equipe MilkPoint.












